Ano 1 Nº 11

A hora da vida

Há dicas e mais dicas para que a mamãe receba seu bebê, amenizando os traumas do nascimento.
Conheça cada uma delas e prepare-se pois, mais dias menos dias, pode ser a sua vez

Não há dúvidas. Só quem já passou pela dor do parto pode descrevê-la. A maioria é unânime em dizer que dar a luz é a dor mais forte que o ser humano pode sentir. É também a mais paradoxal. Um momento único em que uma nova vida chega ao mundo, sensação inerente e restrita às mulheres. Mas, voltando à dor. Há sim, maneiras de ter um parto com menos trauma e mais tranqüilidade. No país da cesárea, ainda há o que se trabalhar. Muito se diz em campanhas e entrevistas de autoridades da saúde pública, mas o Brasil segue recordista mundial, lamentavelmente, em partos por cesariana – neste caso, o bebê é “retirado” por um corte na região abdominal, em vez de sair pelo canal vaginal. Especialistas de todo o mundo afirmam que esta é uma das maneiras mais traumáticas de se conceber um filho. Por que não muda? “Simplesmente porque dá mais dinheiro”, responde sem rodeios Maria de Lourdes da Silva Teixeira, moderadora e criadora da Lista de Discussão de Parto Natural que circula na Internet e membro da Rehuna (Rede pela Humanização do Nascimento). Para ela, não há interesse em fazer parto normal pois demora mais, além de exigir atenção e dedicação que toma o tempo extra para outras consultas ou atividades do obstetra.
À opinião de Maria de Lourdes somam-se as de muitos outros profissionais e mães que optaram por partos naturais. “Acredito que muitas mães passam a gravidez querendo fazer parto normal, mas quando chega a hora o médico as induz à cesárea. Pelo menos foi isso que aconteceu quando tive minha primeira filha. Com o segundo, descobri um médico em Campinas, interior de São Paulo, que me ajudou a realizar o sonho de ter um parto natural”, conta Ana Cristina de Andrade Duarte.
O médico de Campinas é o doutor Adaílton Salvatore Meira, um dos poucos do estado a ter uma clínica para partos naturais, inclusive em água. “A cesariana aumenta as chances de infecções hospitalares no bebê em 10 vezes e pode intervir no processo natural pode dificultar o início da amamentação”, diz o médico que ajudou Ana Cristina.

A hora da vida
FRANÇA, ANOS 70

Essa discussão pode até parecer nova, fruto de um momento de maior interação entre o homem e a natureza. Mas não é. A luta pela humanização do nascimento já está na casa dos trinta. Surgiu na década de 70, quando hippies pregavam paz e amor. Foi o médico francês Fréderick Leboyer (leia reportagem sobre Shantala) o primeiro a alertar sobre a “violência” nos parto. Seu livro “Por um nascimento sem violência” (edições brasileiras o nomearam de Nascer Sorrindo) atacava a cirurgia, a intensidade das luzes, a ausência do pai na hora do parto, o clássico tapa na bunda do neném, a frieza das maternidades.
A comunidade científica dividiu-se e, a partir dali, a obstetrícia não seria mais a mesma. Os seguidores do francês começaram a convidar o pai para dar o primeiro banho na criança, diminuíram as luzes, aqueceram o ambiente, colocaram uma música de fundo, deixaram a mãe optar pela posição mais agradável e ainda anularam a anestesia.
É um momento de euforia. Alívio e entusiasmo se encontram. Há muita intensidade, dor, mas é como se tivesse uma onda da natureza a levasse para uma experiência única.”Assim a terapeuta floral Ruth Toledo lembra seus partos naturais sem anestesia, há exatos 21 e 19 anos, quando chegaram Júlia e Theo.

ÍNDIAS DE CÓCORAS

O Brasil deu uma contribuição importante na história dos tipos de partos. Em 1973, realizando um trabalho de prevenção do câncer ginecológico no Sul do Brasil, os médicos Moisés e Cláudio Paciornik, pai e filho respectivamente, começaram a notar condições melhores entre indígenas que tinhas os filhos de cócoras ou sentadas e mulheres que davam à luz em hospital. Passaram a estudar a posição e a notar que era muito menos dolorida para a mãe e que a verticalização ajudava o bebê. Quase três décadas depois, o mundo segue os resultados desses trabalhos, apresentados em congressos internacionais de medicina.
Na posição vertical, o período de expulsão é mais curto, sem falar que a mãe pode participar mais, pegar a criança, amamentá-la. A equipe auxilia e estimula para que isso aconteça. “No parto em posição deitada, a parteira ou o médico “fazem o parto”. “Incluindo a dilatação, o parto vertical é até 30% mais rápido. A possibilidade de ver o filho nascer facilita a interação da mãe com o bebê”, explica o próprio doutor Cláudio, hoje dono de uma clínica em Curitiba.
“Nas minhas duas gestações, foi muito difícil achar alguém que fizesse parto de cócoras, sem anestesia”, conta a arquiteta Maria Cecília Cominato, mãe de Inaiê, 6 anos, e Ian,2. O segundo filho nasceu em casa, por sugestão da médica e receio de Cecília, já que a menina havia tido infecção hospitalar. Denominando-se “natureba” e praticante de yoga, afirma que sentiu pouquíssimas dores. “A intensidade aumentou no final, mas logo estava com o bebê no colo. Foi a melhor experiência da minha vida. Nunca me senti toa próxima de Deus”.
Na prática de partos normal ou natural, não necessariamente a mãe ficará de cócoras. Ela escolhe a posição em que se sente melhor. Pode ficar de joelhos, de quatro ou até sentar em uma cadeira especial, desenvolvida para hospitais com apoio para o bumbum e abertura em meia-lua que auxilia o médico.

AJUDA DA ÁGUA

Outra possibilidade de se ter um filho de maneira natural é dentro da água. “A maior vantagem é para a mãe que está tendo contrações. Com a água a 36 ou 37 graus, há um relaxamento natural.. A água também diminui o peso da gravidade, ou seja, a parturiente sente um alívio do peso do neném no ventre. Tudo isto implica mais facilidade para o bebê “descer” na bacia ou progredir a dilatação, diz o doutor Adaílton Salvatore.
Ele esclarece que a mãe pode sair da água no fim do trabalho de parto e que o bebê não corre o risco de afogar, pois não há necessidade de respirar debaixo d’água, já que ele continua a receber sangue pelo cordão umbilical por alguns instantes. Para a criança, a experiência é ótima, garante o médico, porque ela passa de um meio líquido quente (aminiótico) para outro morno, o que é menos traumático.
De certa forma, especialistas apostam que tanto o parto normal (que admite a anestesia) como o natural não tem fórmulas mágicas nem posições melhores ou piores. “A cesárea é inevitável em muitos momentos. Mas deve ser feita por necessidade e não porque o médico precisa atender outras pacientes. É um absurdo uma mulher passar nove meses se preparando para ter parto natural e não poder porque não interessa à maternidade”, completa Ana Cristina, mãe de dois filhos.

 

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Parto de joelhos
Outra posição que alívia as dores. Muitas índias usam essa posição. Dizem que foi assim que Maria deu à luz o Menino Jesus.


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Parto Normal Deitado
Apesar de ser mais difícil para a mulher é a forma mais usada de parto normal. A posição exige força para que o bebê seja expulso.

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Parto na água
Feito em banheira com água morna, é recomendado porque ajuda a evitar o trauma do bebê, que passa de um meio liquido (amniótico) para outro.

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Parto cesariano
Feito via abdominal, por meio da cirurgia. É recomendado somente quando a mãe ou o bebê correrem algum risco.

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Parto de cócoras
Para muitos obstetras é a melhor posição por ser a mais confortável para a mãe fazer o parto normal.


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Parto sentado
No hospital, há uma cadeira especial com apoio para o bumbum da gestante e abertura em meia-lua. É um dos mais rápidos e menos doloridos.

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Parto de quatro
Uma variação do parto normal de cócoras. Algumas gestantes, na hora do nascimento, buscam essa posição por achá-la mais confortável.

 
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