Ano 1, Nº 48

Sem medo de exibir o barrigão

Mais conscientes de seus corpos, as grávidas de hoje em dia pensam em maneiras de manter a forma e preservar a saúde.

Sem medo do barrigãoJá foi o tempo em que as mulheres escondiam a sua gravidez entre quatro paredes e abriam mão de sua vida social. Também já passou a época em que uma mulher grávida de maiô provocava estardalhaço, como aconteceu quando a atriz Leila Diniz apareceu na praia de Ipanema, de biquíni, no oitavo mês de gestação. A grávida de hoje tem consciência de seu corpo, procura ter uma vida saudável, manter a forma, cuidar da alimentação e, se possível, passar por um parto natural. Tem uma espécie de orgulho em exibir seu barrigão.
Mas não é fácil manter a linha. Há mulheres que chagam a engordar de 30 a 40 quilos durante a gravidez. Estas dificilmente conseguiram recuperar a mesma forma de antes da maternidade. As seqüelas serão inevitáveis. É nos três primeiros meses de gestação que a grávida costuma sentir mais fome.

“Faço tudo para ater a alimentação a mais natural possível, mas é difícil. Sinto fome e tenho um fraco por chocolate” diz Jeanne Dória Nunes Gonçalves, 23 anos. Desde o início da gravidez ela pratica ioga e natação. Atualmente, no sétimo mês de gestação, ela engordou nove quilos, o que é considerado satisfatório pelos médicos. Não sentiu o menor constrangimento em mostrar o corpo na praia. Ao contrário, o efeito relaxante a da água e do mar lhe fazem muito bem.

Chocolate - Paula Haddad, 31 anos, também tem se esforçado para manter o peso e, como a amiga, reclama que é difícil resistir ao chocolate. Mas procura se alimentar bem. Faz bicicleta ergométrica e natação. Como formanda em Educação Física diz que é natural que toda mulher queira recuperar logo a forma após o parto. “É muito chato quando o nenê nasce e a barriga continua grande”, explica.

Sem criar muita expectativa, para não ficar obcecada pelo assunto, Paula Haddad deseja muito que seu parto seja natural, que não seja obrigada a fazer cesariana como aconteceu no nascimento de seu primeiro filho. Conta que a recuperação do corpo no pós-parto é muito mais demorada na cesárea do que no parto natural: “Nos primeiros dias, após a cesariana, o corte incomodava tanto que eu tinha dificuldade até para dirigir meu carro”, lembra.

Desta vez, no sétimo, Paula já engordou 10 quilos. Gosta de sentir a barriga crescer, de acompanhar os movimentos do feto, de imaginar como o bebê vai ser. Diz que o corpo leva de seis a oito meses após o parto, para voltar à mesma forma anterior. Recomenda a amamentação no peito, que faz o útero se contrair mais rapidamente e possibilita uma recuperação mais tranqüila.

Se a alimentação sadia e o controle de peso são essenciais para a saúde da gestante, os exercícios físicos também o são. Na Companhia Atlética há um programa especial para gestantes, baseado principalmente na hidromassagem. São três aulas semanais de uma hora e meia cada.
Há uma primeira parte da aula que se realiza na sala de ginástica da academia. Lá elas fazem alongamento, exercícios respiratórios e conversam. É o que chama de interação social. As gestantes trocam experiências, compartilham a ansiedade e acompanham o desenvolvimento da gravidez das colegas. Na segunda parte praticam hidroginástica numa piscina aquecida a 28 graus centígrados. Grávidas a partir do terceiro mês, com autorização do obstetra, podem freqüentar o programa.
A música nos auto-falantes fornece o ritmo dos exercícios. Corpo relaxado na água, no oitavo mês de gravidez, Melissa Barros Brandão, 27 anos, parece se divertir durante a aula, com o feto que se mexe em sua barriga.

Ela se exercita desde o início da gestação e vem se alimentando bem, numa dieta a base de frutas e muitas fibras. “O paladar se altera durante a gravidez”, conta. Mesmo assim engordou 13 quilos. “Estou no meu limite”, diz. Acha que os exercícios a deixam mais bem-disposta, não só fisicamente, também no astral. Principalmente agora, no final da gestação, quando as grávidas tendem a sentir pesadonas. “A mulher, hoje em dia, faz questão de se sentir bem, não só em termos estéticos, mas no quesito saúde”.

Carmém Porto, professora responsável pelo programa de gestantes da Companhia Atlética, diz que já aconteceu algumas vezes: a grávida relaxava na piscina e horas depois estava na maternidade. Diz também que durante o trabalho de parto, as alunas recordam dos exercícios de respiração que faziam no curso. Cita ainda como benefícios trazidos pelos exercícios, o fato de a água aquecida não deixar a grávida perder muito calor corporal e a posição vertical que facilita o retorno venoso e o bombeamento de sangue.

Meio líquido - Em termos psicológicos, a massagem da água da piscina, por todos os lados, permite que a gestante libere suas emoções. O meio líquido propicia à futura mãe vivenciar o que o feto vem passando em sua barriga. Água. A mãe revive o próprio nascimento na piscina. “Exercícios para a vida que virá, para o bem-nascer da criança e o bem-estar da mãe”, explica Carmém.
Durante o curso há palestras com nutricionistas para orientar a alimentação da gestante e um departamento de avaliação física que mantém, permanentemente, um cadastro atualizado com suas condições físicas. A ficha é fornecida à grávida para que ela possa leva- la ao seu obstetra. Antes da primeira sessão há uma avaliação cardiológica completa. Os exercícios na piscina podem continuar no pós-parto. Nos nascimentos normais, acabada a hemorragia, as mães estão aptas a retomar os exercícios. Nas cesarianas, tão logo o médico libere.
Há quem precisa manter o corpo em forma por razões profissionais. A professora de dança do ventre, Telma Lira, 34 anos, grávida de sete meses, é uma delas. Ela é obrigada a ter um cuidado especial com o corpo para, após o parto, poder voltar à sua atividade. Embora ressalte que sua principal motivação para se exercitar e se alimentar bem vem da vontade de ter um parto tranqüilo, natural é claro, e um bebê saudável. Mesmo assim ela acha que engordou um pouco além da conta, 14 quilos. Reclama ainda que sofreu com o calor forte deste verão que baixou a pressão.

Desde o início da gestação sua principal preocupação tem sido evitar as estrias. Vem utilizando um creme desenvolvido pela Payot para gestantes e está contente com o resultado até agora. Faz hidroginástica desde o começo da gravidez: “Sinto-me leve dentro d’água”, diz. Acha que isso diminui o inchaço nos seus pés, melhorou sua circulação, deu maior elasticidade à sua pele e a preparou melhor para o parto. “Quando estou dentro da água sinto a barriga macia, tudo parece mais calmo”, conta.

Leila Diniz - Telma não vem usando maiô porque tem medo de não caber dentro, não porque tenha vergonha de mostrar o corpo de grávida. Para nadar usa um conjuntinho de shorts e camiseta. Acha que hoje em dia a mulher não precisa mais esconder a barriga. “Ter filho é uma opção, não é mais uma obrigação da esposa”, diz. Ela mesma engravidou por vontade própria. “Foi uma casualidade, não foi algo planejado, mas eu não neguei a vida a ele”, conta. Mas queixa-se que é difícil levar uma gravidez sozinha.

Uma das maiores dificuldades para a grávida se manter em forma é a restrição ao uso de medicamentos. Restrição que se estende ao período de amamentação. Por isso a doutora Nadyr Nascimento Canellas da Costa, obstetra e médica estética do La Forme Center, recomenda às gestantes uma dieta personalizada e proteínas hidrolisadas, um complemento alimentar a base de aminoácidos que “reduzem um pouco a voracidade das grávidas”, diz.

Ela acha que com todos os recursos modernos, as mulheres não precisam mais engordar 30 ou 40 quilos como acontecia antigamente. “Isto é prejudicial à mulher, ao feto, além de trazer sérios problemas de hipertensão”, diz.

A obstetra recomenda que as gestantes evitem as estrias desde o início, cuidem permanentemente da pele e se protejam com filtros solares. Acha que elas devem ter muito cuidado com os cosméticos que utilizam, pois a absorção da pele é forte. Sugere o uso de bons hidratantes, com base natural, que evitam manchas e estrias. “As grávidas são lindas, devem preservar essa beleza”, afirma.

Ela acha que após o parto, quando recupera seu corpo, a mulher que se tratou fica mais bonita do que antes. “Como o quadril sempre fica um pouco maior após o nascimento do bebê, a mulher fica com curvas mais sensuais.”, diz. A médica ressalta que é muito importante o acompanhamento psicológico pós-parto, já que muitas mulheres ficam deprimidas. “Tratar do corpo é uma das melhores maneiras de se recuperar, porque hoje em dia há um grande arsenal à disposição da mulher”, termina.

Natural é normal

Os índices são assustadores: o Brasil é o campeão mundial de cesarianas, com 36,4% do total de partos feitos desta maneira. O número considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde é de 15%. A cesariana em si não é um mal. Pose ser a melhor solução para um grande número de partos, mas seu uso abusivo é extremamente danoso. Representam um desperdício de dinheiro calculado em R$ 83,4 milhões por ano e são responsáveis pela ocupação de quase 1.700 leitos hospitalares por dia. Por isso a primeira-dama Ruth Cardoso, em pessoa, vem participando pela campanha liderada pelo Conselho Regional de Medicina pelo parto natural.
Nos hospitais particulares a situação é mais preocupante ainda. Há números que apontam a cesariana em quase 70% dos partos realizados. As razões são muitas. Vão desde a insegurança de algumas mulheres ao comodismo dos médicos.

Algumas mães temem as dores do parto que, na verdade, só ocorrem durante as contrações, quando a recuperação da cesariana é mais dolorida e demorada.

Da parte dos médicos há possibilidade de marcar uma cesariana com antecedência, para uma sexta-feira, por exemplo, e com isso garantir um final de semana sossegado. O abuso desse procedimento foi tão grande que, em alguns hospitais, se chama a cesariana de sexta-feira, de “parto Guarujá”.

Os malefícios do excesso de cesarianas também são muitos. O índice de mortalidade é três vezes maior que nos partos normais. Os problemas respiratórios nos bebês de cesariana também são muito mais freqüentes. Por isso o lema da campanha enfatiza que “natural é o parto normal”.

Em Campinas o doutor Adaílton Salvatore Meira é um dos militantes pelo parto natural. Diz que as cesarianas são responsáveis por um maior gasto de tempo nos hospitais, pelo maior uso de medicamentos e pelo emprego de mais profissionais: “Um gasto desnecessário para um país em desenvolvimento”, pondera. Isso sem falar nos riscos maiores dede infecção hospitalar.

Obstetriz – As intervenções médicas nos partos vêm aumentando em todo o mundo. Na Holanda, onde, em 1958, 70% dos partos eram realizados em casa, hoje se registram apenas 36%. Só que lá, a velha parteira, hoje chamada obstetriz, teve seu trabalho reconhecido. Ela recebeu formação universitária e ganhou status de médico. A obstetriz não faz parto interventivo, apenas ajuda o parto natural acontecer. “O parto é fisiológico em 85% dos casos. Apenas em 15% das situações ele é patológico e justifica uma intervenção médica como a cesariana”, diz o médico.

Ele defende uma maior autonomia das mães para decidir as condições que desejam ter no parto. “Cada mulher deve optar livremente, por exemplo, a posição em que deseja ter filho”, afirma. “A posição ginecológica não é a única opção”, diz. Ele apóia a iniciativa do Governo e diz que é necessário uma grande campanha de conscientização da nova geração para ressaltar a importância do parto natural, da mesma forma que ocorreu com a prevenção à Aids.

 

Adailton Salvatore Meira

Sem medo do barrigão

Sem medo do barrigão

Sem medo do barrigão

 
Escreva para nós