Setembro de 2003

Por uma boa hora

De cócoras, na água, normal, CESARIANA... Não importa a modalidade de parto: o importante é que seja uma experiência cada vez mais HUMANIZADA.

Proporcionar à mulher um momento de harmonia consigo mesma e com seu bebê durante a gestação e também no parto. Hoje, é esta a idéia que toma conta dos serviços de atendimento a gestante. A preocupação com a humanização dos procedimentos médicos até o parto não é nova, mas vem se consolidando como uma nova forma de tornar o nascimento um acontecimento natural e especial tanto para a mãe quanto para o filho. Isto envolve o respeito ao desejo da mulher em relação ao parto.
Parto normal, cesárea, de cócoras, na água, domiciliar são alguma das modalidades que as mulheres podem escolher atualmente. Mas nem sempre a opção pode se tornar realidade. A forma de nascimento do bebê só é definida nos momentos finais da gestação, depois de uma avaliação geral das condições da mãe e da criança. Portanto, uma mulher que tenha esperado por um parto normal pode ser submetida a uma cesárea, caso haja necessidade. Os médicos enfatizam que não há motivo para ficar frustrada se isto vier a acontecer.

Normal e cesárea

Os partos normal (vaginal) e cirúrgico (cesariana) são os tipos mais comuns realizados no Brasil e cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar de o parto normal, em que a intervenção cirúrgica é menor (pode ocorrer a episiotomia, corte do períneo, em casos de dilatação insuficiente), ser considerado o ideal por instituições como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde (OMS), a incidência de cesarianas no Brasil é muito alta. A cesárea é um procedimento cirúrgico em que o bebê é retirado após cortes em várias camadas da barriga.
No ano passado, segundo o Ministério da Saúde, 25,2% do total de partos realizados pelo SUS foram cirúrgicos. A previsão para este ano é de que as cesáreas atinjam 25,8% dos partos no país. Este índice só perderia para o de 1998, quando 28,4% dos partos brasileiros foram cesarianas. A OMS recomenda uma taxa de 15% de cesáreas para populações em risco. Isto quer dizer que mais de 80% das mulheres muito provavelmente estarão aptas a ter seus bebês por parto normal.

Campinas, cidade grávida

Em Campinas, a proporção de partos normais no ano passado foi de 50,9%, superando em menos de 2% a taxa de cesarianas. Mas já é um avanço em relação a 2000, quando o percentual de partos normais foi ainda menor na cidade, respondendo por cerca de 46,39% do total.
Com o programa de humanização do parto Campinas Cidade Mãe, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde, a meta da Prefeitura de Campinas, o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Hospital Celso Pierrô, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

Humanização

O presidente da Maternidade de Campinas, Carlos Alberto Politano, ressalta que os serviços de saúde trabalham cada vez mais com o conceito de parto humanizado. Tal proposta inclui, entre outras coisas, a realização de pelo menos seis consultas médicas no pré-natal e a presença de um acompanhante nas consultas e na hora do parto.
Estas medidas podem contribuir para uma redução do número de cesáreas. “A mulher de hoje está muito ansiosa e isso interfere na sua condição emocional durante o trabalho de parto. A presença de alguém ao seu lado ajuda muito”, afirma.
Segundo Politano, a taxa de acompanhamento ainda é muito pequena. “É um grande desafio. Não adianta estimular o parto humanizado se o pai tem uma dificuldade social de participar”, analisa. O médico acredita que é preciso encontrar meios que facilitem a presença do pai durante o pré-natal e no momento do parto.
Politano lembra que a opção pela cesárea, ainda muito comum, está ligada ao ingresso da mulher no mercado de trabalho. “A mulher passou a encarar o final da gestação de maneira mecanizada e, muitas vezes, opta por programar o parto para que o marido e a família possam estar presentes”, diz. Além disso, hoje a mulher se recupera muito bem da cesárea e a pós-cesariana é tranqüila. “Todas as vias de parto são factíveis, mas não devem ocorrer por modismo”, diz o médico.

Parto de cócoras

O parto de cócoras existe há muitos anos como uma tradição das civilizações antigas. No Brasil, este é um costume das índias. Na década de 70, o médico Moisés Paciornik, de Curitiba (PR), observou que as índias, mesmo em idade avançada, mantinham a tonicidade e a integridade do períneo, mais que as mulheres civilizadas.
O professor associado do Departamento de Tocoginecologia da Unicamp e coordenador do Grupo de Parto Alternativo do Caism, Hugo Sabatino, relata que os críticos da técnica alegavam, na época, que o parto de cócoras “estragava o períneo” da mulher e as índias nada sofriam, porque tinhas costumes diferentes.
Nos anos 80, a Unicamp demonstrou, pro meio de um estudo com 20 mulheres, que os músculos perineais ficam mais relaxados quando a mulher dota a posição de cócoras. Desde então, foram realizados mais de mil partos de cócoras no Caism.
O procedimento é relativamente simples. Enquanto está em trabalho de parto, a mulher pode ficar na posição que lhe seja mais confortável e é estimulada a caminhar, ajoelhar-se ou ainda se sentar. Música ambiente auxilia o casal nos exercícios de relaxamento.
O parto é feito em uma cadeira especial, desenvolvida pela equipe da Unicamp. Geralmente, não é feita a episiotomia e não é necessário uso de anestesia. O marido tem papel fundamental, pois dá apoio á mulher durante todos os procedimentos.
Sabatino explica que a preparação que o casal faz ao longo da gestação representa uma grande diferença na hora do nascimento do bebê. Em sessões semanais no Caism são desenvolvidas atividades de preparação física e psicológica, monitorada por uma equipe formada por psicólogos, fisioterapeutas e enfermeiras.
“Cerca de 70% das mulheres que participam do grupo conseguem fazer o parto de cócoras. E 8% conseguem faze-lo, mas necessitam de analgesia. Apenas 12% a 15% precisam fazer cesárea”, afirma. Ele observa que a posição dá maior liberdade de movimentos e permite que a parturiente e médico se olhem face a face.

Do útero para a água

A água é um relaxante natural e pode ser uma grande aliada das parturientes antes e na hora do parto. O ginecologista e obstetra Adaílton Salvatore Meira classifica a água entre os recursos disponíveis para se lidar com a dor, junto com a respiração, as massagens, a acupuntura e a presença de uma pessoa escolhida pela gestante.
O parto ocorre em uma banheira portátil que é armada na maternidade, na qual entram apenas a parturiente e o pai da criança, que se senta atrás da mulher e participa ativamente de todo o processo. A água, a uma temperatura de 34°C, cobre toda a barriga da grávida. De acordo com Meira, o bebê geralmente nasce na primeira hora depois que a mãe entra na banheira. Na maioria dos partos na água, a episiotomia não é necessária e a anestesia, dispensável.
As vantagens são muitas. “Alivia a dor, provoca o relaxamento, abrevia o trabalho de parto, dá leveza e liberdade de movimentos à mãe, enumera o médico. Também há benefícios para o bebê. A transição entre o útero e o meio aéreo ocorre de forma mais suave. “Alguns chegam a brincar na água”, comenta. Meira enfatiza que não há perigo de afogamento para o bebê.
O médico já realizou 60 partos na água e a procura tem aumentado sensivelmente. De acordo com ele, uma dificuldade técnica limita a realização deste tipo de parto: a ausência de banheiras nas maternidades. Em Campinas, apenas a Maternidade de Campinas permite a realização de partos na água, com a banheira portátil.

Nascer bem é normal

A publicitária Heloísa Nascimento Coelho, 34 anos, teve a filha Maria Carolina por parto normal há cerca de quatro meses. Mas a escolha do tipo de parto ocorreu de forma natural ao longo da gestação. “Conversei muito com o obstetra e deixamos para definir quando estivesse mais perto do nascimento, para que a escolha fosse a melhor para mim e para o bebê”, conta.
A primeira experiência de parto de Heloísa foi tranqüila e muito alegre. E ela contou com a presença do marido durante o parto. “Nós nos preparamos por nove meses. Quando chegou a hora, não me assustei”, diz. Na opinião da publicitária, o parto normal é importante para a mãe e para op bebê. “O bebê percebe que está nascendo”.

Cesárea, sem riscos

O medo de sentir dores muito fortes levou a agente de turismo Cláudia de Freitas Baldasso, 28 anos, a fazer uma cesárea no nascimento da filha Letícia, de três meses. Seu primeiro filho, Heitor, também nasceu de cesariana. “Pensei em ter Letícia por parto normal, mas quando chegou mais próximo fiquei com medo. Acho que não agüentaria as dores do parto normal”, diz.
Cláudia tirou de letra a fase pós-operatória da cesariana. “Na primeira semana, a gente sente um desconforto e os pontos doem, ma nada é insuportável”, garante. Ela teve a seu favor as caminhadas que fez durante a gravidez de Letícia.

Naturalmente

O desejo da americana Joy Erb, 29 anos, que mora em Bragança Paulista (SP), era ter seu bebê por parto natural e sem o uso de anestesia. “Tentei agüentar o trabalho de parto do meu primeiro filho, mas não consegui e pedi uma anestesia”, relata. A idéia do parto na água surgiu como uma forma de ela relaxar e não precisar da analgesia.
“O parto na água não era uma filosofia minha. O que eu queria era ter um parto natural, sem drogas e o mais tranqüilo possível”, afirma. Trinta minutos depois que Joy foi para a banheira, Austin nasceu. O bebê tem hoje três meses. “Esta experiência me fez rever o número de filhos que quero ter. Ninguém precisou me dizer o que fazer, porque meu corpo sabia o que era preciso e eu me senti ótima e orgulhosa”, relata Joy.

De cócoras, como as índias

No início da gestação, a produtora de TV Isabella Yahn Larson, 27 anos, não imaginava que teria seu primeiro bebê, Laura, por parto de cócoras. Durante a gravidez, ela pesquisou sobre os partos e descobriu o Grupo de Parto Alternativo da Unicamp. Começou a participar das sessões preparatórias junto com o marido, que já tinha vontade de ver seu bebê nascer por parto de cócoras.
Quando completou 40 semanas de gravidez, percebeu que estava preparada psicológica e fisicamente. “Minha idéia era ter um parto natural. E foi maravilhoso. Pensei que fosse sofrer muito mais”, afirma. E o marido de Isabella, que esteve o tempo todo ao seu lado, cortou o cordão umbilical.

Nossas fontes
Adaílton Salvatore Meira
www.maternatura.med.br
Caism, www.caism.unicamp.br
Maternidade de Campinas,
f. 3731-6000

 

Por uma boa hora

Carlos Alberto Poritano

Presidente da Maternidade:

"Todas as vias de parto são factíveis,
mas não devem ocorrer por modismos
"

 

Por uma boa hora

Adailton Meira:

"A água abrevia o trabalho de parto"

 

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