Fevereiro de 1992

Nascer em casa

No pólo oposto ao da cesárea “de data marcada”, médicos e pacientes cansados do excesso de tecnologia, e ávidos de um pouco mais de calor humano, trazem de volta uma prática antiga, comum em países do Primeiro Mundo

“É um resgate do passado, sem excluir os recursos mais modernos”

Imagino que, há quase 100 anos, quando minha avó deu à luz o primeiro de seus onze filhos, não tinha sido muito diferente. Só que, agora, estamos em 1991. É dia 5 de novembro em São Paulo. A casa fica numa ruazinha tranqüila de um bairro da zona sul. Detrás do portão há arvores, cheiro de terra, o canto distante de um galo, latido de cães. A luz que se insinua através da janela e recorta a silhueta da porta na noite estrelada indica que ali, há 28 anos, Eliana nasceu, um bebê vindo ao mundo, cercado de amor e calor.
Eliana é enfermeira, mas não quis ter seu filho num hospital. Cansou de ver coisas que desagradam nas salas de parto: profissionais apressados, tratamento impessoal, condutas que deixam muito a desejar. Ela própria escapou de uma cirurgia desnecessária, no o primeiro filho. O médico dizia que sua bacia era muito estreita e ela é quem teve de convencê-lo de que era capaz de ter um parto normal. No segundo, o medo de ser mal atendida era tanto, que só foi para o hospital na última hora, o nenê quase nascendo no caminho.
Agora, além do mais, Luís Carlos Morilhas Santos, marido de Eliana, quis se dar o prazer e o direito de estar presente quando seu terceiro bebê chegar. Também ele não gostou das experiências anteriores: ser afastado da mulher numa hora tão importante, não pode ajudá-la nem carregar seu filho, ser apresentado a ele através de um vidro de berçário.
A parteira Ângela Gehrke da Silva, com quem Eliana fez o pré-natal, chegou há pouco e constata: 9 horas da noite, contrações regulares, quatro dedos de dilatação, tudo indo superbem. Eliana deita, levanta, caminha pela casa. Pára e respira fundo e vem a dor. Nos intervalos, conversa.
Luís faz chá, nos sentamos à volta da mesa. Vinícius e Felipe, de 4 e 8 anos, dormem com o avô, na casa em frente. Inês, a mãe de Eliana, me garante: está calma desse jeito porque a vida, além de seus 34 anos de enfermagem, lê deu a certeza que a natureza sabe o que faz. A amiga Érica esquenta água para o banho do nenê. Há no ar uma presença benfazeja tão palpável que imagino Ártemis, a deusa grega que “abre o útero”: ou na versão cristã, Nossa Senhora do Bom Parto, aquela que assegura a toda mulher “uma boa hora”: quem sabe ambas, isso mesmo, ambas...deviam estar por perto.
Uma boa hora: onze e vinte e cinco. Um segundo, um susto, um instante solene e mágico em que a dor vira alegria, a cabecinha aparece e, numa única contração, Luana sai inteira do corpo da mãe como um bichinho, chora, se aninha no colo, abraça seu seio e logo abre seus olhinhos para o mundo, vê rostos amigos, o pai, a mãe a avó a parteira Ângela, a amiga Érica e duas “intrusas” emocionadas e perplexas, e nem sei como a Rosa conseguiu tirar tantas fotos, porque estamos todos chorando.

Todos os bebês do mundo

Pouco depois, Luís corta o cordão umbilical que prende a filha ao corpo de Eliana. Colocá-a no banho: ela o encara, curiosa. Antes de vesti-la, Ângela a pesa e mede: 3 200 kg, 52 cm. A placenta já saíra, sem problemas. Eliana levanta, toma banho e vem amamentar Luana. Luís abre uma garrafa de vinho, comovido. Muitas pessoas o chamaram e outras decerto os chamarão de loucos, mas nessa hora tive a certeza de que todos os bebês do mundo gostariam de entrar na vida assim.
Alguns têm tido essa sorte. Apesar das críticas da maioria dos colegas, uns poucos médicos e parteiras corajosos estão trazendo de volta a prática do parto em casa – quase sempre a pedido das próprias pacientes, que se dizem fartas do excesso de tecnologia e ávidas de um pouco mais de calor humano. Uma espécie de volta ao passado que só pode ser compreendida à luz de um quadro no mínimo irônico: se por um lado os avanços científicos diminuíram drasticamente os índices de mortalidade materno-infantil, por outro, geram abusos, evidenciados numa mentalidade equivocada que transforma a exceção em regra – pelo menos no Brasil.
Enquanto nos países do Primeiro Mundo como Holanda, Alemanha, Bélgica, Inglaterra e França incentivam o parto normal, e, em muitos casos, dão à mãe a opção do parto domiciliar, somos os campeões absolutos de cesarianas, mesmo dentro da América Latina. Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Organização Mundial de saúde (OMS) divulgados em 1991 revelam que, nos hospitais conveniados ao Inamps, 90% dos bebês nascem através de cesáreas, índice que cai para 34% nas unidades públicas e particulares – para a OMS, a quantidade máxima de nascimentos por cirurgia deve ser de 20%. Alguns estados apresentam cifras assustadoras: o Amazonas é o campeão, com 85,9% do total de partos, seguido de perto por São Paulo, com 83%. No mesmo documento, o presidente da SBP afirma que o parto cesárea é o mais utilizado entre mulheres das classes média e alta, e que “esse comodismo tem levado estudantes de medicina a deixarem a escola sem saber como conduzir um parto normal”.
Ao mesmo tempo que se assiste a um complexo (e até estéril) debate para se tentar corrigir essas distorções, ações isoladas começam a surgir, no perfil de médicos como o dr. Erwin Rondon e o dr. Adaílton Salvatore Meira, que preferem tratara regra como regra e exceção como exceção. Adaílton é homeopata.; Erwin médico antroposófico. Ambos utilizam os recursos mais modernos da medicina alopática, quando necessários; mas oferecem também, além da disponibilidade para ajudar a mulher a ter um parto normal dentro do hospital, a opção que fica no pólo oposto ao da cesárea “de data marcada”: o parto em casa. Não são todas as mulheres que podem se candidatar a ele. “É um resgate do lado positivo do passado, mas sem os riscos do passado”, diz Adaílton, que estagiou em vários países da Europa após se formar pela Universidade de Campinas (Unicamp) em 83, buscando subsídios para o que prefere chamara de parto ativo, ou não interventivo – “aquele em que a mulher, não o médico, é a protagonista”, como define.
Na clínica que divide com o colega Pedro Serafim Jr. Em Campinas, SP, apenas 25% dos partos são cesáreas, 35% deles puderam ser feitos em casa, com base em referências de segurança usados na Holanda – o país que mais faz partos domiciliares. Devem ir para o hospital em caso de gestantes hipertensas, diabéticas, gravidez gemelar, feto em posição anômala, parto prematuro e pós-data, além de variantes e complicações que podem surgir durante o pré-natal e ata na hora do parto. “Mesmo quando está tudo bem, a decisão final é na hora do parto”, diz Adaílton, que costuma visitar a casa da paciente duas semanas antes da data prevista, para se familiarizar com o local e com o caminho.
Diferente dele, que vive numa disciplinada cidade de 900 mil habitantes, o dr. Erwin Rondon tem de enfrentar o caos de São Paulo, com seus 12 milhões, cada vez que recebe um chamado. Mas, como está convencido de que a casa é o melhor lugar para uma criança vir ao mundo, até porque ela já convive com os germes domésticos através da mãe, dentro do útero, o que afasta o risco de infecção), quando as condições da mãe o permitem, ele releva o trânsito e as longas esperas.

Medicina antroposófica

Peruano, vivendo no Brasil há dezoito anos, Erwin estudou medicina na USP em Ribeirão Preto, SP, onde também fez residência em Ginecologia e Obstetrícia, e estagiou por dois anos em hospitais antroposóficos na Alemanha. A Antroposofia, que utiliza uma farmacologia específica, natural (sem descartar recursos como fórceps ou cirurgia), foi idealizada no início deste século pelo austríaco Rudolf Steiner e vê o homem como um ser dotado de individualidade própria, cujos direitos e dignidade começaram antes do seu nascimento. “Interferir arbitrariamente no parto, sem razão de ordem médica mas para comodidade do obstetra ou dos pais, é ferir essa dignidade e esses direitos”, pensa Erwin.
Denise Linhares Bassi recorrera à medicina antroposófica quatro anos antes de ter sua segunda filha, Patrícia, em casa, e acredita que, não fosse o dr. Erwin Rondon, nem teria tido filhos: com 20 anos, solteira, teve de extrair um ovário; o médico com quem se tratava na época queria, “por precaução”, extrair o outro também. “Não perdi o outro ovário e engravidei com a maior facilidade”, conta Denise, que teve a primeira filha no hospital, de parto normal. Foi tão fácil que, na segunda, nem percebeu que estava tendo contrações – sem dor – na sua última consulta de pré-natal, no dia 14 de dezembro de 89.
Voltaram para casa, ela e o marido Álvaro, a tempo de assistir pela tevê o último debate Lula x Collor antes das eleições presidenciais. O dr. Erwin chegou em seguida, mas Denise só se afastou da tevê depois que o médico rompeu a bolsa e as dores apertaram – por pouco tempo. Uma hora mais tarde Patrícia nascia, com 3 900 quilos.
No caso de Adriana Toledo Piza e Marco Aurélio Fiori, as coisas demoraram um pouco mais. “O Erwin veio aqui umas dez vezes, e era rebate falso”, lembra Adriana, que optara pelo parto em casa depois de uma experiência anterior traumatizante, num hospital público. “Dez horas de trabalho de parto, várias mulheres gritando na mesma sala, pontos sem anestesia”, conta. “E eu lá embaixo, impotente, agoniando”, completa Marco Aurélio. “Acabei me escondendo no banheiro do hospital”.
Gabriel nasceu em julho de 90 e Marco se emociona toda vez que toca no assunto. “Não tive medo um minuto, só pensava em dar força pra Adriana, em ajudar. Foi a experiência mais linda da minha vida; é como se eu tivesse parido junto. Nunca esqueço a hora em que o nenê saiu. Durou quanto? Um segundo? Lembro que o Erwin massageava as costinhas dele, dizia “respira, nenê!” e mandava a Adriana respirar também. Então ela respirou, o ar passou pelo cordão, o Gabriel tossiu e começou a chorar. Foi emocionante ver aquele corpinho criar vida. Se você vê seu filho nascer, seu vínculo com ele fica muito mais forte”.
Os críticos do parto domiciliar dão duas razões básicas para desaprovarem essa prática: 1. Um parto mais humano, com a participação do pai, pode ser feito também no hospital; 2. É indiscutível a segurança maior que o hospital oferece. É essa a posição do dr. Rogério Pinheiro Arraes, que já fez partos em casa e desistiu da idéia. “Os riscos são maiores que as vantagens”, conclui.
Rogério sabe que os profissionais que atendem no domicílio carregam material de emergência (reanimador, oxigênio) para a mãe e o bebê, e que te, previamente tratada, a opção de um hospital próximo para transportar a paciente, se for preciso. Mas acha que esses cuidados são insuficientes. “As possibilidades de complicação durante um parto são imprevisíveis”, afirma.
“Há problemas que você detecta, e há tempo para resolver. Mas às vezes até a distância entre o quarto e o centro cirúrgico, dentro do hospital, é grande demais”.
Formado pela Faculdade de Medicina de Sorocaba, SP, Rogério Arraes fez residência em Amparo Maternal (ligado à Escola Paulistana de medicina), utiliza homeopatia, incentiva suas pacientes ao parto normal e ao alojamento conjunto, mas acha que parto em casa, nos dias de hoje, é um retrocesso: “Se um número significativo de pessoas estivesse fazendo, os índices de mortalidade e morbidade (seqüelas na mãe e no filho) voltariam a crescer. O que deve ser resgatado é a humanidade do parto. Vamos humanizar o hospital”, propõe.

Achar um caminho do meio

Encontrar um “caminho do meio” é também a sugestão da obstetriz Ivete Ollita, formada pela Universidade de São Paulo, em 88 se tornou mestre em enfermagem obstétrica ao defender a tese “Parto Domiciliar” – relato de uma experiência”, na Escola de Enfermagem da USP. O objetivo da tese era avaliar experiências com parto domiciliar que Ivete vivenciou, trabalhando numa equipe, mas a partir da opinião da clientela, não dos profissionais. As conclusões, ela espera que sirvam para subsidiar mudanças na política de atendimento à gestantes, tanto em nível público como privado.
Os resultados da pesquisa – qualitativa, baseada em entrevistas com casais que optaram pelo parto domiciliar, tendo passado também por uma experiência de parto hospitalar – mostram que a idéia de Rogério Arraes, a de humanizar o hospital, salvo raras exceções, ainda está distante da nossa política de saúde. “Nos hospitais públicos, pai não entra em sala de parto”, diz Ivete. “Nos particulares é preciso pagar e, mesmo assim, dificulta-se ao máximo. A maioria dos profissionais não faz força para institucionalizar essa prática.” A obstetriz observa também a freqüência com que ocorrem hiatrogenias, nome que se dá a seqüelas (na mãe e no bebê) resultantes de manobras feitas nos hospitais para apressar o parto, como rompimento artificial precoce da bolsa, induções sem indicação e mal conduzidas etc.
Os informantes da tese de Ivete justificaram ainda sua preferência pelo parto domiciliar mencionando medo de infecção hospitalar, desejo de serem os atores principais e não meros figurantes no nascimento do filho, e desejo de que os custos não fossem excessivos – no parto em casa, a única despesa são dos honorários médicos.
“O que eu proponho, além de melhorar a instituição hospitalar, é que se criam centros alternativos de parto e se dê aos casais também a opção de ter o filho no domicílio, porém com infra-estrutura”, diz Ivete, referindo-se à formação adequada dos profissionais e agilidade dos hospitais para socorrer casos que não tiveram sucesso em casa, como acontece na Europa. “Isso no Brasil não existe. E a paciente não pode arcar com os riscos. A responsabilidade é do profissional”, afirma.

Congresso Internacional

O dr. Adaílton Salvatore Meira espera que esse dia esteja próximo. Este ano, ele participará do II Congresso Internacional de Parto Domiciliar na Austrália (o primeiro foi em Londres, em 87) e pretende organizar uma Associação Brasileira de Parto Domiciliar, à semelhança das que existem em inúmeros países. “Como a própria OMS preconiza, não deve haver competição entre o parto domiciliar e o hospitalar. Ambos tem contribuições a dar”, diz Ivete Ollita.
Pelo menos quem viveu a experiência do parto em casa não se arrepende. A jornalista Ana Maria Freitas só na teve o filho mais velho em casa, conforma estava planejado, porque foi constatado sofrimento fetal, e ela foi para o hospital. Os dois últimos, um menino de 7 anos e uma menina de 3, nasceram como ela queria. “Foi tranqüilo, bom. Uma coisa normal, que faz parte da vida. Você está no seu espaço, no seu meio, com seus micróbios, morria de medo de infecção hospitalar”, diz.
Trautti Schmidt, mãe de Mirthas e Tamires, de 6 e 3 anos, nem pode conceber outra forma de dar a luz. “Gravidez não é doença, parto não é motivo para um hospital, parto não é motivo para um hospital”, diz. Alemã casada com um brasileiro, ela havia visitado maternidades de primeira linha em São Paulo. Não gostou de nenhuma. O obstetra que lhe indicaram horrorizou-se quando ela lhe disse que queria ter o bebê em casa. “Ninguém jamais lhe pedira isso, lembra. Acabou conhecendo Ângela Gehrke, se eu tivesse a menor dúvida de que corria risco, teria ido para o hospital”, garante.
Depois que Gabriel nasceu, em maio de 91, Sílvia e Bruno Ramos também não têm dúvidas: outros filhos deverão vir ao mundo do mesmo jeito. – Sílvia só pretende fazer mais ginástica para melhorar a força na hora da expulsão. Enfermeira como Eliana, ela tinha os mesmos motivos para evitar hospitais. Bruno, professor de inglês, apoiou tanto a idéia a idéia que se refere ao nascimento de Gabriel como “o nosso parto” . Ambos sabem que o parto era fato deles ; o dr. Erwin Rondon só deu uma mãozinha. Para Sílvia, ter um parto normal, e em casa, é uma questão de a mulher se informar, assumir a responsabilidade pelo nascimento do filho e mostra-se dona do seu corpo. As dores, então, tornam-se suportáveis - e passam. “Você tem que pensar: eu é que estou fazendo meu filho nascer. Se tiver essa certeza, você consegue ir até o fim”.

 

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