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Maio 1998
Na melhor posição
Escolha o jeito mais confortável de ter seu filho: deitada, sentada, na água ou de cócoras.
Fábio Sanchez
A maioria das grávidas se imagina, na hora do parto, naquele cenário clássico, tantas vezes visto no cinema ou na tevê: deitada na cama cirúrgica, cercada de médicos que manuseiam instrumentos, o futuro papai do lado de fora aguardando notícia do bebê. Se você já está planejando seu parto, saiba que ele pode ser diferente. Em vez de ficar deitada, você pode ter um filho de cócoras, de lado ou até mesmo sentada. O parto pode ser realizado na água, em uma banheira, ou em cadeiras especiais que oferecem diferentes posições. Você também tem liberdade de escolher quem estará ao seu lado nesse momento e, sendo bem preparada física e emocionalmente, pode suportar as dores do parto e até dispensar a anestesia.
A festa é sua
Mais do que optar por uma outra técnica, o que importa é você perceber que tem o direito de participar ativamente desse espetáculo. “É um dos momentos de maior intimidade que alguém pode ter. Não tem sentido, por isso, a mãe deixar todas as decisões por conta do médico. Ela pode e deve planejar com ele todos os detalhes para seu conforto e segurança”, diz o obstetra Adailton Salvatore Meira.
A primeira decisão é básica: parto normal ou cesariana. Vale mais aqui a sua vontade, que deve ser exposta claramente ao médico. Nesse momento, ele não pode, claro, garantir seu desejo de um parto normal, mas pode prever possibilidades e oferecer experiências e informações que a deixem tranqüila se, por qualquer motivo, for necessária a cesariana. Você saberá, então, que há posições mais adequadas do que outras para que o parto normal transcorra com maior conforto. Ou que cesariana pode ter efeitos diferentes se ocorrer antes ou depois de você passar pelas contrações e pelo trabalho de parto.
Parto normal
A posição mais comum, nessa situação, é a mulher ficar deitada, com as pernas separadas e apoiadas em perneiras. Usada com freqüência desde o século 19, ela facilita mais o trabalho do médico que o da mãe, sendo por isso, hoje, cada vez mais criticada. “O esforço para expulsar o bebê é maior, porque a posição contraria a lei da gravidade, fazendo o peso do bebê trabalhar contra a sua saída. Em vez de se movimentar para baixo, ele tem que se movimentar na horizontal. Além disso, pressiona mais a artéria aorta e a veia cava da mãe, prejudicando a circulação sanguínea no momento do parto”, explica o obstetra Hugo Sabatino, do Departamento de Obstetrícia da Unicamp.
A posição semi-sentada, já em uso em diversos hospitais, elimina alguns desses problemas. A mãe se apóia em um encosto elevado entre 30 e 45 graus em relação à cama, o que facilita a expulsão do bebê, embora permaneça a pressão sobre os vasos sanguíneos. “Essa posição também é melhor, porque alinha o canal do parto entre a bacia e a vagina”, diz o obstetra Jorge Bonduki, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Segundo ele, a tendência da maioria dos bons hospitais é adotar essa posição em substituição à deitada.
Deitar do lado esquerdo para ter o bebê é outra opção no parto normal, conhecida como “posição de Sims”. Ela beneficia a circulação sanguínea, porque não pressiona a veia cava, localizada no lado direito da coluna vértebra. Nessa posição, a mãe mantém a perna esquerda estirada sobre a cama e dobra a direita. Foi o jeito mais confortável para a médica veterinária Tatiana Nogueira Dal Fabro que teve sua primeira filha Lorena, em Maio. “Não precisei nem mesmo de anestesia”, diz ela, que teve a filha na quarta contração e conta, orgulhos, que Lorena recebeu nota dez no teste de Apgar, que verifica o estado geral do bebê nos primeiros minutos de vida.
A favor da gravidade
Conta ainda com a aprovação de muitos especialistas o parto normal feito de cócoras, porque é o que melhor aproveita a força da gravidade, oferecendo vantagens para a mãe e o bebê. Como a mulher se apóia nas pernas, relaxando a bacia, a elasticidade do canal do parto aumenta em até 25%, facilitando a saída do bebê ao reduzir a compressão sobre a sua cabeça. A mulher, por sua vez, tem mais liberdade de movimentos durante os intervalos dos puxos, e os esforços de expulsão do bebê. Ela pode andar, ficar deitada ou sentada antes de assumir novamente a posição de cócoras, o que não acontece na posição horizontal.
“A posição de cócoras é a mais fácil, natural e saudável possível, tanto que era utilizada pela grande maioria das civilizações antigas de que se tem notícia, desde os índios até os egípcios”, lembra o obstetra carioca Fernando Estelita Lins. Para esse tipo de parto são necessários alguns exercícios de alongamento durante a gestação, que ampliem a elasticidade muscular da região pélvica, pouco estimulada na mulher de vida mais sedentária, que vive nos grandes centros urbanos.
A professora Ana Cristina Ferreira passou por essa experiência quando teve a filha Jenifer em março: fez yoga, alongamento, massagens e teve liberdade para passar grande período do trabalho de parto debaixo de um chuveiro. “Essa posição me deixou muito a vontade e permitiu que eu curtisse aquele momento. Por um espelho, pude ver a filha nascendo desde que apareceu sua cabecinha. Foi uma das imagens mais lindas que já vi”, lembra ela. Isso é possível porque as cadeiras especiais que auxiliam o parto de cócoras dispõe de um espelho na sua parte inferior e também de uma bolsa de água aquecida, na qual pode ser colocado o bebê.
Na banheira
Na água, o parto normal também vem ganhando cada vez mais adeptas. Realizado em uma banheira com pelo menos 1,5 de diâmetro, com água entre 34° e 36°, ele propicia grande relaxamento muscular para a mãe e o nascimento mais suave para o bebê porque, como alegam especialistas, na banheira ele continua envolto em água, como estava no útero em líquido amniótico. “O bebê passa alguns segundos na água, antes de ser retirado e colocado no colo da mãe. E outra vantagem é a possibilidade de integração entre o pai e a mãe na hora do parto. Ela pode apoiar-se nas pernas do marido, que pode ficar sentado na borda da banheira”, observa Adailton Meira.
Quando a psicóloga Magali Serrano teve sua filha Manada, em abril, não pensava no parto na água, mais preferiu assim que sentiu seu corpo mais relaxado em uma banheira. “Fiquei de cócoras na água e me senti mais a vontade para ficar do jeito que achasse melhor para ter a minha filha. Isso me deu a sensação de ter o controle da situação e muita confiança em mim mesma”, diz Magali.
Alguns médicos temem esse tipo de parto, com receio de infecções, já que a água é um meio de transmissão de microorganismos. O obstetra Adailton, que realizou o parto de Magali, avalia que como a mulher passa para a água os microorganismos de sue próprio corpo, com os quais o bebê já esteve em contato, isso não representa riscos.
Cesárea
Mais preocupante, na avaliação dos médicos, a cesariana, devido a intervenção que provoca no abdômen da mãe. Classificada como “epidemia” pelas entidades médicas brasileiras, que nesse ano iniciam nova campanha para combatê-la, a cesariana chega a representar 85% dos partos realizados em hospitais e maternidades brasileiras, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que elas não ultrapassem de 15%.
A cesárea deveria acontecer apenas em gestações de risco, como as de mãe que tem problemas renais, diabetes ou hipertensão grave, ou ainda quando os bebês são gêmeos, prematuros ou estão em posição inadequada na hora do parto. Esses casos, segundo a OMS, ocorrem em cerca de 100% dos partos, sugerindo que a cesariana costuma ser realizada sem necessidades, às vezes apenas por conveniência de médicos, que preferem não submeter a agenda a imposições de tempo de um parto normal. Ou também desejo de algumas mulheres que, principalmente, pelo receio da dor, preferem não se submeter ao parto natural.
Mais riscos
Por ser uma cirurgia, a cesariana oferece risco muito maior de infecções e hemorragias do que no parto natural. Além disso, algumas etapas importantes do processo de nascimento podem ser prejudicadas. Durante o trabalho de parto, por exemplo, o corpo da mãe produz envia ao bebê substâncias químicas que vão auxiliar sua respiração nos primeiros momentos de vida fora do útero. Nessa etapa, também são estimuladas funções maternas, como produção de leite. Se o parto foi uma cesariana, com hora marcada, pro exemplo, provavelmente não haverá trabalho de parto.
A analista de sistema Sílvia Raimundo Lopes, teve seu segundo filho, André, em uma cesariana realizada em agosto. “Minha primeira filha nasceu de parto natural. Achei a cesariana muito violenta. Dá a impressão de que meu filho foi arrancado de mim. Além disso, a recuperação da cirurgia é muito mais complicada e dolorida que no parto normal”, diz ela.
Outras mães se entusiasmam com a cesariana. É o caso da ex-jogadora da seleção brasileira de basquete Hortência Oliva. Seus dois filhos, João Vitor e Antônio nasceram com hora marcada. “Eu sempre quis ser mãe, mas não suportaria o parto normal, não pela dor, mas pela correria toda, pela afobação que é. Senti mais segurança me submetendo a isso e não houve qualquer problema para mim ou para meus filhos”, disse Hortência. De fato, a cesariana é bem menos perigosa que anos atrás. Mesmo os especialistas entusiastas do parto natural como Fernando Estelita Lins, acreditam que ela é hoje “mais inócua do que nunca”. Mas, como ressaltam, a cesariana deve ser considerada apenas como uma solução de urgência: “Tornar este tipo de parto uma rotina é um grande engano”, conclui o médico
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