Fevereiro - 2002

A hora de nascer

Cada vez mais você pode participar das decisões sobre o parto. Para fazer a escolha certa, é fundamental tirar as dúvidas, conhecer os métodos, as anestesias disponíveis e as novidades sobre o assunto

O que você espera no momento de ter o bebê? Gostaria de sentir cada contração, dispensar a anestesia e agüentar quanto tempo fosse preciso? Ou ir para a maternidade com hora marcada para uma cesariana? O respeito à vontade da mãe foi um dos principais temas debatidos no 49º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, que ocorreu no final do ano passado em São Paulo. A conclusão dos médios que participaram do encontro é que a grávida pode e deve optar pelo tipo de procedimento contanto que a saúde dela e a do bebê estejam protegidas. “No século 21, o processo de parto será resgatado pela mulher”, afirma José Guilherme Cecatti, obstetra da Faculdade de Medicina da Unicamp.
Embora a conclusão pareça óbvia, nem sempre é colocada em prática nos consultórios. Uma pesquisa realizada em quatro capitais brasileiras, coordenadas por Elza Berquó, do Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp, e por Joseph Potter, demógrafo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, mostrou que 70,4% das entrevistadas, atendidas em hospitais particulares, desejavam parto normal. No entanto, 72% fizeram o cirúrgico. A alta taxa indica que boa parte dessas cesáreas não era desejada. Nos hospitais públicos, a realidade é um poço diferente: 25% dos partos realizados em 2001 pelo Sistema Único de Saúde foram cesáreas. Esse dado ainda é alarmante – uma vez que a Organização Mundial de Saúde sugere que essa técnica não ultrapasse 15%. Há mais perigos para a mãe na cesariana: o risco de morte é seis vezes maior.
Apesar das estatísticas, muitas mulheres adoram a idéia de conceber sem dor mesmo que tenham que conviver com os incômodos que o corte provoca depois. Há pouco mais de uma década, a maioria dos obstetras criticava a cesariana feita sem necessidade. Segundo o ginecologista Djalma da Cruz Gouveia, do Hospital e Maternidade São Luiz, de São Paulo, as mulheres passavam semanas andando encurvadas por causa da incisão, sem falar nos efeitos colaterais da anestesia, como as dores de cabeça. Com os avanços tecnológicos, o lado negativo diminuiu. Assim, o que vem prevalecendo é a vontade da mãe, a sua segurança e a do bebê. A medicina tem recursos para lidar com cada caso. “Quando alguma mulher me pergunta qual é a melhor opção, eu respondo: “realize o seu sonho”, diz o ginecologista Nelson Antunes Jr., do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Mesmo quem defende a cesariana como uma opção da mãe não incentiva a hora marcada e sugere que ela espere as contrações para faze-la. A seguir, as vantagens e desvantagens dos métodos, as novidades em anestesia e técnicas alternativas.

Parto normal

Raramente o primeiro filho nasce de forma repentina. Desde o começo das contrações até o nascimento, o processo, demora, em média, dez horas – o tempo de sobra para ligar para o médico, para o marido e arrumar a mala.
Vantagens – O pós-operatório é rápido e quase indolor. Os riscos de infecção são mínimos. Quanto ao bebê, ele nasce quanto está pronto e não é retirado do útero precocemente. As contrações funcionam como uma massagem, favorecendo a expulsão dos líquidos pulmonares do bebê, o que facilita a respiração no momento do nascimento. Embora pareça pouco, nascer duas semanas antes da hora, algo que pode ocorrer se não for parto normal, pode significar uma diferença de cerca de 300 gramas no peso do recém-nascido e alguma deficiência pulmonar.
A boa notícia é que hoje os anestésicos são grandes aliados. Há medicamentos de uso local para facilitar a episiotomia (corte de 3 a 5 centímetros entre o ânus e a vagina que amplia o canal para ajudar a passagem do bebê) e doses mais pesadas, que bloqueiam a dor e os movimentos das mulheres da cintura para baixo. Assim, essa técnica não é mais sinônimo de dor por horas a fio. Os anestésicos só são aplicados quando a mulher já tem no mínimo 5 centímetros de dilatação. “Antes disso, pode emperrar o processo de contração e dilatação , atrapalhando a evolução do parto”, explica o ginecologista Nelson Antunes.
Caso haja complicações, os médicos podem voltar atrás e realizar a cesárea, mesmo que o bebê se encontre encaixado. Só não há como intervir se a criança estiver saindo. Algumas mulheres acreditam que, pelo fato de serem mais sedentárias do que as mães e avós, o parto normal seja mais difícil. Os especialistas, no entanto, são categóricos ao afirmar que três ou quatro décadas é um período extremamente pequeno para uma mudança desse porte no organismo. Portanto, a estrutura física da mulher de hoje não dificulta o parto normal. O médico deve apenas avaliar se há compatibilidade entre o tamanho do bebê e da mãe. Às vezes, uma mulher muito pequena não consegue dar à luz uma criança grande.
Desvantagens – Na maioria das mulheres, é preciso fazer a episiotomia para impedir que o tecido do períneo se rompa com a pressão exercida pelo bebê. Esse procedimento pode causar desconforto na recuperação. Mas o ginecologista Nelson Antunes Jr. Alerta que sem ele o períneo chega a romper em 70% dos casos. A sutura aproxima a musculatura, que esgarça, e fecha um pouco a entrada e o canal da vagina. Algumas mulheres contam que começaram a sentir dor na relação sexual porque a sutura deixou a passagem apertada demais. Outras reclamam quem, mesmo com a sutura, a vagina não voltou ao normal. Mas isso é exceção a regra. O comum é se recuperar em seis semanas. Quem teve vários bebês de parto normal precisará fazer a cirurgia de períneo para levantar a bexiga e o útero, que tendem a cair, provocando incontinência urinária.

Cesárea

No passado, ela era utilizada somente em situações de risco para a mãe ou para o bebê. Atualmente, também é opção para quem não quer ser pega de surpresa ou sentir dor. Apesar da evolução, não se pode esquecer que se trata de uma intervenção cirúrgica.
Vantagens - O corte de 10 centímetros é feito 2 centímetros abaixo da linha dos pêlos e a cicatriz é imperceptível. Há 15 anos, a incisão era de 15 centímetros e na vertical. Os órgãos genitais ficam intactos. É o método mais indicado quando o bebê não está na posição adequada, a cabeça da criança é maior do que a passagem da bacia materna, a mãe sofre de doenças crônicas, como hipertensão ou diabetes, ou há alguma situação que compromete a saúde de um dos dois. Ele também é recomendado a mulheres com mais de 35 anos. “Porque os tecidos não têm tanta flexibilidade e o colo do útero pode não dilatar”, afirma o ginecologista Djalma da Cruz Gouveia. Caso o bebê tenha mais de 4 quilos, há mais riscos de complicações. Mas isso não impede o parto normal.
Desvantagens - É uma cirurgia que corta seta camadas de tecido. Portanto, há possibilidade de infecção e um pouco de dor nos dias seguintes. Até mesmo um ano após o parto, algumas mulheres ainda sentem desconforto no abdome. “Quem deseja ter mais de três filhos deve optar pelo parto normal primeiro”, explica Djalma da Cruz Gouveia. Ele esclarece que o tecido da cicatriz do útero não tem a mesma elasticidade de antes da sutura, podendo romper com o esforço do parto. Para o bebê, o risco é ser retirado sem estar totalmente pronto. Mas há exames que praticamente eliminam essa possibilidade. O melhor é esperar as primeiras contrações e só então partir para a cirurgia e não marcar uma data baseada na sua vontade.

Dor: só se quiser

Para muitas mulheres, o medo da anestesia é maior do que o do próprio parto. Nos últimos cinco anos, entretanto, essa foi a área da obstetrícia que mais evoluiu. A agulha raquidiana ficou mais fina, eliminando os efeitos colaterais. Quanto à eficácia, a anestesia de duplo bloqueio – combinação da raquidiana com a peridural – é a mais nova e potente arma contra o desconforto. “Hoje, só sente dor quem quiser”, afirma Elizabeth Lorenz, anestesista do Hospital e Maternidade Santa Joana, se São Paulo. Entre as anestesias disponíveis, estão as mais utilizadas:
Peridural – Aplicada na camada mais externa que reveste a medula, ela bloqueia a dor sem impedir os movimentos. Para surtir efeito, a dose administrada é grande, o que exige cuidados como monitoração cardiológica e vigilância sobre possível intoxicação. É usada no parto normal e na cesariana. Mas a mulher precisa ter, no mínimo, 5 centímetros de dilatação para não interromper o processo no útero, como as contrações.
Raquidiana – Antes, a espessura da agulha permitia o vazamento de liquor (líquido que envolve o sistema nervoso), o que provocava dores de cabeça. Por isso, a raqui era tão temida. Mas na última década, ela evoluiu. A agulha é extremamente fina, e uma dose de morfina foi incluída no medicamento, o que evita a dor no pós-operatório. Ela bloqueia a dor e os movimentos da mulher da cintura para baixo – sem anular as contrações uterinas – e pode ser utilizada em ambos os métodos. A parturiente deve ter, no mínimo, 5 centímetros de dilatação antes de aplica-la.
Bloqueio de pudendo – Só serve para o parto normal. A dose é aplicada no nervo pudendo, situado na região do períneo. A anestesia não bloqueia as dores da contração, apenas tira a sensibilidade para que se possa realizar a episiotomia. Ela é usada em pessoas que não querem ser totalmente anestesiadas com uma das outras opções.
Duplo bloqueio – É a combinação da peridural com a raquidiana. É liberada durante o parto por um cateter colocado nas costas da mulher, que sente as contrações e a pressão do bebê, mas não tem dor. A grande vantagem é não provocar efeitos colaterais.

Os alternativos

As adeptas dos partos alternativos ainda são minoria, mas estão aumentando. Na clínica do ginecologista Adaílton Salvatore Meira, em Campinas (SP), há dez anos apenas 10% das grávidas atendidas pediam para fazer o parto na água. Hoje, esse índice quadriplicou. Quanto ao de cócoras não existem registros. Mas há 30 anos não se falava nele. Agora, existem grupos espalhados pelo país exercendo a técnica. Veja como elas são:
Água – O objetivo é relaxar a paciente e diminuir as dores nas costas e na barriga. Antes de entra na água, numa temperatura em torno de 35 graus Celsius -, a parturiente precisa ter no mínimo 7 centímetros de dilatação. De acordo com Adaílton Salvatore, o método é menos dolorido porque a grávida fica mais leve e se movimenta com facilidade. Em alguns casos é feita a episiotomia com anestesia local.
Cócoras – A posição exige participação da mulher e, segundo seus defensores, ela é instintiva. “Se a mulher estivesse sozinha, sem médico, ela ficaria de cócoras para dar à luz”, afirma Moysés Paciornick, ginecologista de Curitiba. Ele explica que nessa posição a vagina abre 28%, o reto vai para trás e a bexiga sobe, deixando o canal livre. Além disso, o peso da criança, do útero e da placenta ajuda no processo.
De lado – É a descoberta mais recente, feita pro Anatália Basile, enfermeira obstetra do Hospital geral de Itapecerica da Serra (SP). Ela concluiu que essa posição é mais confortável para a mãe, porque a abertura vaginal fica 3 centímetros maior, as contrações são mais espaçadas e a mulher ainda tem liberdade de movimento.

Toda grávida quer saber

O fórceps é seguro?

Esse equipamento é utilizado para ajudar a passar a cabeça do bebê. Na mãe de médicos experientes não provoca danos. Caso contrário, pode machucar a criança, deixando seqüelas, como deficiências mentais e físicas.
Respiração de cachorrinho funciona?
A respiração rítmica é uma forma de desviar a atenção da mãe da dor. Ela acalma, mas não tem efeitos na contração e na expulsão. Para evitar excesso de oxigênio no sangue, atrapalhando o equilíbrio metabólico da mulher, o médico a mantém monitorada e, caso seja necessário, pede para parar.
Como se induz o parto?
A droga mais usada é a ocitocina, que provoca contrações. Ela é utilizada quando a mulher tem dilatação do colo do útero, o bebê está na posição não há contração. Caso o útero, não dilate, a prostaglandina pode ser aplicada no início do trabalho de parto.

 

 

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